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Virtude.

Penso eu que diabos tenho feito da minha vida. Ela, que passa por mim sem pedir licença e se eu quiser, que me segure onde der. Tentei me libertar da vulgaridade que, por anos, cultivei – sem me dar conta, evidentemente.

Mas o fato é que eu não pensava antes. Eu fazia. E que se fudesse o oposto. Ah, cara, mas eu sou filha única. Almoçava na sala com refrigerante e tomava danoninho de sobremesa. Não quis um pônei, quis um cavalo, e tive. Não quis um velocípede, quis um triciclo, e tive. Não quis uma bicicleta, quis uma moto, e tive. Quer dizer, eu era horrível diante da grandiosidade dos meus pais. Pessoas pelas quais, hoje em dia, eu admito ser enlouquecidamente apaixonada.

Antes de tudo, não havia bêbados, mendigos, fome e dor. Se bebesse, era graça. Se mendigasse, ganhava. Se tivesse fome, pegava na conta. Se sentisse dor, era tombo jogando bola.

Só que hoje, a dor dos outros, na maioria das vezes, é mais visceral pra mim. Hoje, é tudo responsabilidade minha. Eu que antes nem sequer assumia as minhas próprias responsabilidades, hoje em dia acho que o caos do mundo é um peso meu. Culpo-me pela falta de fé das pessoas. Pelos que usam drogas, pelos que jogam lixo no chão. Pelos professores incompetentes e egocêntricos. Culpo-me.

Lembro, como hoje, da época do vestibular. Que é uma época muito nostálgica pra mim. A dúvida me achatando ao chão. Humanas sempre foi certo, mas ai, o leque é imenso. Uma amiga disse: “cara, faz direito”. E eu fiz. E estou quase terminando.

E sempre, sempre encontrei preconceito. Sempre houve muitos erros, muita interpretação incoerente. Sempre, sempre. Mas eu vivo no meio de gente que, ao menos, tem paixão por esse ramo. Que não é dos piores também. É necessário, isso é fato. E como em qualquer outra profissão, há os profissionais de merda. Mas ontem foi o auge. Minha professora de Direito Civil IV, disse em sala que o papel do advogado é defender a qualquer custo.

Mas acreditem em mim, pra mim não é. Pra mim, direito é um meio de por ordem nas coisas. De resolver as relações que, sozinhos não conseguimos por uma série de fatores. Enfim, fiquei decepcionada e vi nela, a razão dos maus olhos que as pessoas tem sobre o direito. Ela me envergonhou. E prometo que não serei assim. Prometo que a soberba e o dinheiro não farão de mim uma profissional ruim como fez dela. Porque eu ainda acho que se pode resolver as coisas da maneira certa. E a gente precisa de educação porque, pra mim, essa coisa de “jeitinho brasileiro” é balela. É desculpa de quem não quer fazer do jeito certo. Que fique claro que não quero defender a burocracia nem a superioridade do Estado. O que eu estou defendendo é a honestidade. E olha que eu faço Direito.

O lado ruim do Direito é por causa de alguns e nada me deixa com mais raiva que ver quem não entende absolutamente nada ter uma opinião a qual defende com uma veemência de Doutor no assunto. Quem não sabe, não fala. Poxa. Só queria que as coisas melhorassem e acredito de verdade que eu posso fazer alguma coisa quanto a isso. Mesmo.

Algumas coisas ainda são puras. E não me desvirtuarei.

É só.

As coisas das quais eu sinto falta e não terei mais são como uma dose severa de realidade. Claro, acompanhada de nostalgia de forma transbordante. Essas coisas, as quais não terei mais, me machucam na mesma medida em que eu tenho remorso delas. Se o remorso é muito, a dor é muita.

Imagine, perder alguém. Imagine. Nascer para morrer. Como se sentiria? Sentiria o peso de todas as montanhas.

Quer dizer, as pessoas têm na nossa vida uma relevância maior do que na maioria das vezes imaginamos. E só quando elas não estão mais ao alcance de um telefonema, de um encontro casual num bar, de um e-mail, de um chopp, é que medimos e descobrimos onde ela ficava em nós.

Nesse caso, a saudade brilha me mim. Os sonhos que eram compartilhados vem todos à tona e tudo se torna melancólico e arrastado. Tudo perde muito do sentido e as coisas que não lembrariam até lembram. Por tanta ausência. Por tanto vazio. De tão grande.

É um desespero que, ao longo do tempo, se torna cotidiano. De tanto invadir, vira companhia. De tanto ferir, adormece. De tanto chorar, já não se chora mais. Ou se chora por tudo. Por imagens absolutamente indiferentes à situação, mas tudo lembra. Porque se torna carne viva. Ferida aberta que pulsa junto como pulsar do coração. Exatamente na mesma batida.

E tudo é evasivo. Tudo disfarça e chora. Tudo é ela. Tudo é o que se perdeu e poderia ter tido melhor. Por isso dói. Porque estar com as pessoas especiais nunca é suficiente. E quando elas se vão, nos sentimos abandonadas. Largadas. Inferiores. Quando elas se vão, nós ficamos. Por isso dói.

. carol

 

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O que há de mais belo a ser dito é dito sempre em silêncio. O silêncio que me permite olhar no espelho e ver cicatrizes na minha personalidade, marcas de aprendizados subentendidas no vazio contemplativo na interrupção dos sons externos.

O que poucos sabem, porém, é que do silêncio emana um som, e o meu silêncio tem a trilha sonora da saudade. Saudade das confissões ditas em trocas de olhares, dos pequenos momentos raros de felicidade eterna que nunca voltarão a ser vividos, dos sonhos compartilhados como se fossem matéria.

As palavras sussurram o som do silêncio e nos momentos em que olhar para dentro e me ver sem uma parte de mim é mais doloroso que olhar para fora e ter certeza de que os caminhos são feitos para que cada um encontre o seu próprio e solitário final, eu ouço o silêncio balbuciando em meus ouvidos: “…”*.

* Este trecho não pode ser traduzido em português, já que a língua oficial do Silêncio é de difícil transposição pois é dita sempre pela voz de cada um; ou seja: leia o título novamente.

Júlia.

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        Sinto-me contente quando conheço algumas pessoas. Mas depois de meia-volta, não tê-las conhecido, quem sabe, seria melhor.
Não as pessoas nobres – é evidente -, mas as que não entendem de nobreza. Justamente aquelas que jamais a reconheceriam se a vissem. E percebi que a nobreza reside exatamente na simplicidade de viver. Viver a puro pão que o diabo amassou. Seja pão de dor ou de amor. Mas amassado até a ultima migalha.

        Eu me canso das pessoas. Com freqüência. Todo dia pra ser exata. Me canso quando a novidade acaba e elas não ligam. São só em ser. Sem brilho nenhum. Presas a idéias pragmáticas e velhas, como elas.

            Talvez por isso eu goste tanto de você. Porque eu gosto demais de você. Demais no sentido de muito, de bastante mesmo. Na minha fala de você, sempre existe uma ponta imensa de orgulho. E nas entrelinhas não há segredo em perceber a minha satisfação em conhecê-la. Em querê-la demasiadamente bem. A qualquer custo.

            Eu queria, pra mim, uma vida nova. Ou só cor nova a essa vida. Mas acabei me amarrando a determinadas coisas. Bem como você, ou não? Somos daquelas que passam, num instante, a sustentar cansaço quando temos que andar todo santo – ou herege – dia pela mesma rua. Eu quero o mundo.
E gosto de falar sobre querer o mundo com você, mas não sei porque.

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            Ainda há pouco disse pra Fernanda que, com ela, eu dividiria a vida – e seria feliz. Não sei, acho que não vou encontrar ninguém que tenha o tamanho dela. E não é nem que ela seja grande – pra que fique claro essa grandeza. É enorme. É linda. É tão ela que me arrepia.         

            Vive as coisas com um desespero que de quem tem sempre sede. De quem sempre é fiel ao que sente, ao que quer. Embora nem sempre ela saiba o que quer. Mas mesmo à confusão ela dá-se. E isso é para os bons. Ela enfrenta como se amanhã não existisse e de fato, pra ela, amanhã é só uma possibilidade. O hoje a absorve como o dia ao crepúsculo. E todo dia ela renasce. Com nova sede, novo ânimo, novo sorriso e novas expectativas. Cansáveis vezes pra ter tudo e nada. Mas ter, de alguma forma, tudo o que lhe vale. E não custa nada. E não sobra nada, e não passa nada.

            Ela pega pela mão todos os que aparecem com um sorriso e dá um sorriso a todas as carrancas. E no fim, todos a olham com doçura. Mesmo quando ela se faz um furacão indomável. Mesmo quando ela faz de um pequeno amor um tormento e de uma sutil amizade uma eternidade, mesmo assim, ela suga até as raízes e depois disso, amá-la é quase que involuntário. Porque o contrario disso, quer dizer, não amá-la, deveria, a partir de agora, ser oficialmente um crime de teor irreparável.

        A melhor indicação que eu posso dar na vida: Fernanda. Por sua grandeza, postura, sinceridade e pelo sorriso, claro.

        Tantas vezes foi o sorriso sem intenção dela que melhorou meu dia, e depois de um tempo a semana e agora, muda minha vida. Sem mencionar abraço – que não merece minha descrição pequena.

        Eu descreveria a Fernanda como a um samba. Daqueles felizes. Daqueles que transformam a atmosfera ao redor. Daqueles que fazem as pessoas se olharem com intenção de afeto, com desejo de flores. A minha, particularmente, transformou-se no exato momento em que nos sentamos uma do lado da outra. E depois disso, as mãos se deram e nada mais pode desfazer isso. 

            Eu seguraria as pontas pra ela. Seguraria o elevador, a cabeça e o riso – caso fosse necessário. Enfrentaria um engarrafamento em São Paulo, enfrentaria um impertinente, enfrentaria o mundo, enfrentaria um choro. Eu me manteria ao seu lado quando doesse, quando risse, quando caísse e quando mais ela quisesse.

Ter um amigo é uma benção. Ter a Fernanda transcende.

 

 

* o texto foi um e-mail que mandei pra ela numa tentativa desesperada de solidariedade. E ainda que não fosse solidariedade, seria ouvir. Ainda que não fosse ouvir, seria atenção. Ainda que não fosse atenção seria interesse. Ainda que não fosse interesse e não fosse nada – seria a Fernanda. Isso me basta.

http://recantodasletras.uol.com.br/autor.php?id=11805

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      Porque você é uma menina como uma flor e tem uma voz que não sai, eu lhe prometo amor eterno, salvo se você bater pino, o que, aliás, você não vai nunca porque você acorda tarde, tem um ar recuado e gosta de brigadeiro: quero dizer, o doce feito com leite condensado.

            E porque você é uma menina com uma flor e chorou na estação de Roma porque nossas malas seguiram
sozinhas para Paris e você ficou morrendo de pena delas partindo assim no meio de todas aquelas malas
estrangeiras. E porque você sonha que eu estou passando você para trás, transfere sua d.d.c. para o meu
cotidiano, e implica comigo o dia inteiro como se eu tivesse culpa de você ser assim tão subliminar. E porque quando você começou a gostar de mim procurava saber por todos os modos com que camisa esporte eu ia sair
para fazer mimetismo de amor, se vestindo parecido. E porque você tem um rosto que está sempre um nicho, mesmo quando põe o cabelo para cima, parecendo uma santa moderna, e anda lento, e fala em 33 rotações mas sem ficar chata. E porque você é uma menina com uma flor, eu lhe predigo muitos anos de felicidade, pelo menos até eu ficar velho: mas só quando eu der uma paradinha marota para olhar para trás, aí você pode se mandar, eu compreendo.

            E porque você é uma menina com uma flor e tem um andar de pajem medieval; e porque você quando canta nem um mosquito ouve a sua voz, e você desafina lindo e logo conserta, e às vezes acorda no meio da noite e fica cantando feito uma maluca. E porque você tem um ursinho chamado Nounouse e fala mal de mim para ele, e ele escuta e não concorda porque ele é muito meu chapa, e quando você se sente perdida e sozinha no mundo você
se deita agarrada com ele e chora feito uma boba fazendo um bico deste tamanho. E porque você é uma menina que não pisca nunca e seus olhos foram feitos na primeira noite da Criação, e você é capaz de ficar me olhando horas. E porque você é uma menina que tem medo de ver a Cara-na-Vidraça, e quando eu olho você muito tempo você vai ficando nervosa até eu dizer que estou brincando. E porque você é uma menina com uma flor e cativou meu coração e adora purê de batata, eu lhe peço que me sagre seu Constante e Fiel Cavalheiro.

            E sendo você uma menina com uma flor, eu lhe peço também que nunca mais me deixe sozinho, como nesse último mês em Paris; fica tudo uma rua silenciosa e escura que não vai dar em lugar nenhum; os móveis ficam parados me olhando com pena; é um vazio tão grande que as mulheres nem ousam me amar porque dariam tudo para ter um poeta penando assim por elas, a mão no queixo, a perna cruzada triste e aquele olhar que não vê. E porque você
é a única menina com uma flor que eu conheço, eu escrevi uma canção tão bonita para você, “Minha namorada”,
a fim de que, quando eu morrer, você, se por acaso não morrer também, fique deitadinha abraçada com Nounouse cantando sem voz aquele pedaço que eu digo que você tem de ser a estrela derradeira, minha amiga e companheira, no infinito de nós dois.

            E já que você é uma menina com uma flor e eu estou vendo você subir agora – tão purinha entre as marias-sem-vergonha – a ladeira que traz ao nosso chalé, aqui nessas montanhas recortadas pela mão de Guignard; e o meu coração, como quando você me disse que me amava, põe-se a bater cada vez mais depressa.
E porque eu me levanto para recolher você no meu abraço, e o mato à nossa volta se faz murmuroso e se enche
de vaga-lumes enquanto a noite desce com seus segredos, suas mortes, seus espantos – eu sei, ah, eu sei que o meu amor por você é feito de todos os amores que eu já tive, e você é a filha dileta de todas as mulheres que eu amei; e que todas as mulheres que eu amei, como tristes estátuas ao longo da aléia de um jardim noturno, foram passando você de mão em mão até mim, cuspindo no seu rosto e enfrentando a sua fronte de grinaldas; foram passando você até mim entre cantos, súplicas e vociferações – porque você é linda, porque você é meiga e sobre tudo porque você é uma menina com uma flor.

 Vínicius de Moraes.

 

 

*Foto: Marília Assis – que olha como ninguém. 

Um dos grandes.

 

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“O drama de uma vida pode sempre ser explicado pela metáfora do peso. Dizemos que temos um fardo sobre os ombros. Carregamos esse fardo, que suportamos ou não. Lutamos com ele, perdemos ou ganhamos. O que precisamente aconteceu com Sabina? nada. Deixara um homem porque quis deixá-lo. Ele a perseguira depois disso? Quis vingar-se? não. Seu drama não era de peso, mais de leveza. O que se abatera sobre ela não era um fardo, mas a insustentável leveza do ser.”
Milan Kundera

 

(Nota:

Uma das melhores obras de Milan é: A Insustentável Leveza do Ser. Que foi publicado em 1984. O romance se passa na cidade de Praga e atravessa algumas décadas. Narra os amores e os desamores de quatro pessoas: Tomas, Tereza, Sabina e Franz. É permeada pela invasão russa à Tchecoslováquia e pelo clima de tensão política que pairava na Praga daqueles dias. Foi adaptado para o cinema pelo diretor Philip Kaufman sob o nome de The Unbearable Lightness of Being.

 
*Milan Kundera
1 de abril de 1929, BrnoTchecoslováquia.)

 

Precisa-se.

…precisa-se de alguém homem ou mulher que ajude uma pessoa a ficar contente porque esta está tão contente que não pode ficar sozinha com a alegria, e precisa reparti-la. Paga-se extraordinariamente bem: minuto por minuto paga-se com a própria alegria. É urgente pois a alegria dessa pessoa é fugaz como estrelas cadentes, que até parece que só se as viu depois que tombaram; precisa-se urgente antes da noite cair porque a noite é muito perigosa e nenhuma ajuda é possível e fica tarde demais. Essa pessoa que atenda ao anúncio só tem folga depois que passa o horror do domingo que fere. Não faz mal que venha uma pessoa triste porque a alegria que se dá é tão grande que se tem que a repartir antes que se transforme em drama. Implora-se também que venha, implora-se com a humildade da alegria-sem-motivo. Em troca oferece-se também uma casa com todas as luzes acesas como numa festa de bailarinos. Dá-se o direito de dispor da copa e da cozinha, e da sala de estar. P.S. Não se precisa de prática. E se pede desculpa por estar num anúncio a dilacerar os outros. Mas juro que há em meu rosto sério uma alegria até mesmo divina para dar.

Clarice Lispector